69. CADERNOS DO SILÊNCIO

CADERNO II 

TEXTO 2

A AÇAO SEM CENTRO PESSOAL 

Há um ponto em que a ação ocorre
sem referência a um “eu” que a conduz.

Não há apagamento da identidade funcional,
mas há ausência de centralidade psicológica.

A ação acontece
porque precisa acontecer.

(Pausa.)


O Fim do Autor

Antes, havia alguém que pensava:
“eu faço”,
“eu escolho”,
“eu conduzo”.

Aqui, isso se suaviza.

As decisões surgem
como respostas naturais ao contexto,
não como afirmações do eu.

Nada é empurrado.
Nada é reivindicado.

Responsabilidade Sem Peso

Curiosamente,
a responsabilidade não desaparece.

Ela se torna mais simples.

Faz-se o que precisa ser feito.
Assume-se o resultado.
Segue-se adiante.

Sem ruminação.
Sem narrativa extra.

(Pausa mais longa.)


O Corpo em Primeiro Plano

A ação sem centro pessoal
é sentida primeiro no corpo:
gestos mais econômicos
menos tensão residual
recuperação rápida após esforço

O corpo não carrega histórias.
Ele retorna ao presente
com facilidade.


Diferença Sutil

Não se trata de passividade.
Nem de indiferença.

A ação continua precisa,
às vezes firme.

Mas não há apropriação interna
do ato.

O ato passa.
O campo permanece.


Fechamento do Texto 2

O Caderno II aprofunda
uma convivência rara:

movimento
sem agitação.

Silêncio
sem retraimento.

LUZ E VIDA