66. CADERNOS DO SILÊNCIO

CADERNO I — TEXTO 4

O DESCANSO DA ATENÇÃO

Há um momento
em que a atenção deixa de vigiar.

Não por descuido,
mas por confiança.

Nada ameaça o campo
quando não há mais algo a defender.

(Pausa.)


Antes: Atenção Direcionada

Havia foco.
Havia escolha.
Havia intenção clara.

A atenção se movia
para sustentar a clareza.

Isso foi necessário.

Agora: Atenção em Repouso

Aqui, a atenção não se dispersa
nem se concentra.

Ela repousa.

Como um olhar
que não procura nada
e, ainda assim,
vê tudo o que surge.

Não há tensão.
Não há esforço invisível.

(Pausa mais longa.)

O Corpo Percebe Primeiro

Antes que a mente reconheça,
o corpo já sabe:
a respiração desacelera
o olhar suaviza
os gestos perdem excesso

Não é prática.
É consequência.

O corpo responde
ao fim da urgência.


A Inteligência do Não-Fazer

Não fazer, aqui,
não é recusar a ação.

É agir
sem carregar a ação.

Quando algo precisa ser feito,
é feito.

Quando não precisa,
não há inquietação.


Sinal Discreto de Maturidade

O sinal não é êxtase.
Não é expansão.
Não é visão.

É simples:

Nada está faltando.

E isso não depende
do que acontece fora.

(Pausa profunda.)


Fechamento do Texto 4

Este texto não adiciona nada.
Ele apenas reconhece
que a atenção já sabe descansar.

O silêncio não pede continuidade.
Mas, se houver continuidade,
ela nascerá desse descanso.

LUZ E VIDA